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28 de set. de 2011
Elementos de Euclides e o Racionalismo
Eis um livro que todo mundo conhece muito bem sem nunca ter lido, Elementos de Euclides, original de 300 a.c. Essa versão eu não sei em que museu está, mas na internet tive acesso a impressão da Universidade de Coimbra de 1855.
Me chamou atenção esse livro pelo fato de ter sido sobre ele que foi construída a escola de epistemologia Racionalista, dos quatro grande pensadores René Descartes, Baruch Spinoza, Gottfried W. Leibniz e Immanuel Kant. Esse método consiste em tomar determinados conhecimentos supostos como verdadeiros e, a partir deles, provar teoremas, isto é, verdades derivadas, utilizando um procedimento seguro ou preservador de verdade, trata-se do mesmo método utilizado também pelos lógicos até hoje. Em verdade, não podemos compreender a epistemologia se não conhecermos as teorias de Descartes, Kant e dos empiristas britânicos.(DUTRA, 2010).
Descartes tomou o modo de investigar dos matemáticos, que se consolidou na obra Elementos do matemático grego Euclides, como modelo do pensamento racional rigoroso, que Descartes e os demais racionalistas desejavam aplicar à filosofia. (DUTRA, 2010).
A reforma do saber, que tanto racionalistas quanto empiristas empreenderam, visava a uma oposição à metafísica e à fundamentação da ciência moderna. Entendia-se que era nas ciências bem-sucedidas que o intelecto humano mostrava toda a sua capacidade. Daí o interesse especial pelo método axiomático da geometria euclidiana. (DUTRA, 2010).
A obra de Euclides (1855) inicia-se com as definições:
I. Ponto é o que não tem partes, ou o que não tem grandeza alguma;
II. Linha é o que tem comprimento sem largura;
III. As extremidades da linha são pontos;
IV. Linha reta é aquela que está posta igualmente entre as suas extremidades;
V. Superfície é o que tem comprimento e largura...
Ou seja, se hoje qualquer monografia deve apresentar as definições dos termos, culpem Euclides, e mais ainda Descartes que o usou de pedra fundamental epistemológica. Mas acredito eu que com ou seu Euclides ninguém escaparia das definições, quero chamar atenção para o capítulo dos axiomas que inicia assim (EUCLIDES, 1855):
I. As coisas que são iguais a uma terceira, são iguais entre sí;
II. Se as coisas iguais se juntarem a outras iguais, o todo será igual;
III. E se das coisas iguais se tirarem outras iguais, os restos serão iguais;
IV. E se as coisas desiguais se juntarem a outras iguais, o todo será desigual;
V. E se das coisas desiguais se tirarem coisas iguais, os restos serão desiguais...
O Racionalismo se apoia na ideia de Euclides (1855) para assumir que as demonstrações feitas por meio de método axiomático dependem da aceitação prévia das noções primitivas. O método axiomático é, sem dúvida, um instrumento de valor para a teoria do conhecimento. O Racionalismo é o projeto de encontrar essas primeiras verdades, e a partir delas, por meio de um método axiomático ou dedutivo rigoroso, derivar outras verdades, fundamentando completamente o saber humano (DUTRA, 2010).
O que há a mais a ser dito sobre o método axiomático e o racionalismo é que a razão não é apenas "fonte" de verdades fundamentais, mas também algo dotado de capacidades ou faculdades. A noção geral de que possuímos faculdades cognitivas (como a sensibilidade, a imaginação, o entendimento e outras) é um pressuposto tipicamente racionalista, pois está associada a essa perspectiva a ideia de que o intelecto humano possui determinada estrutura, e que ela, enquanto nos capacita a conhecer (determinadas coisas), impões-nos restrições ou condições especiais (segundo as quais as coisas podem ser conhecidas). Os racionalistas acreditam que a estrutura do intelecto humano contém "conteúdos" (DUTRA, 2010).
O aprendizado de Descartes com Euclides (1855) fica evidente quado ele argumenta que a dedução, que nos permite conhecer as coisas, mesmo sendo certas, não são por si mesmas evidentes. Mas elas podem ser conhecidas se forem deduzidas a partir de princípios verdadeiros e conhecidos por um movimento ininterrupto do pensamento, que possui uma intuição clara de cada coisa. (DUTRA, 2010)
Entende-se que não interessa o conhecimento (mesmo que verdadeiro) adquirido por qualquer outro método que não seja o racional, exatamente como fez Euclides (1855) que apresenta seu raciocínio com a seguinte ordem: Definições; Axiomas; Postulados; Proposições. Sendo que cada um apresenta um grau mais denso de sofisticação teórica sempre baseado na categoria imediatamente inferior e desta forma reduzindo-se até axiomas e definições das quais nada pode mais ser reduzido. A necessidade então é de buscar sempre a verdade original que sustenta todo o sistema o Cogito.
27 de set. de 2011
DAVIDSON: On the Very Idea of a Conceptual Scheme
O certo era ler o livro todo, mas seria muito desvio de rota de minha parte, sabendo que meu objeto está fixo. Mas ele é a pedra fundamental para fechar a discussão epistemológica, sobretudo para completar Quines (1951). O texto escolhido então foi "On the Very Idea of a Conceptual Scheme". O texto trata basicamente da dualidade analítica e sintética. Só que a argumentação para a força da linguagem é bastante diferente dos que tinha lido anteriormente. Na verdade assim como todos, tenho a impressão que o empirismo sai fortalecido, mesmo sem que seja necessário testemunhar a seu favor.
Esquemas conceituais são formas de organizar experiencias, são sistemas de categorias que dão forma aos dados sensoriais, eles são pontos de vista dos quais indivíduos, culturas ou períodos buscam os cenários passados (DAVIDSON, 1973).
Percebam que nada Davidson (1973) falou sobre modelagem, certamente não era o seu foco, nem o meu, mas é possível sim afirmar que modelagens empíricas são esquemas conceituais observando o rigor conceitual do próprio. Categoricamente Davidson (1973) afirma que todos tem esquemas conceituais (por exemplo, religiões são esquemas conceituais) e todo esquema conceitual, provavelmente, possui esquemas rivais. Já que são originados pelos sentidos e isso explica tudo.
A existência de esquemas rivais é conhecida como paradoxo ou contradições. O relativismo conceitual nos afasta da ideia de que haja um real e um irreal, na verdade nosso ponto de estudo é muito mais modesto, o objetivo primário é tentar entender como estabelecer fronteiras entre os esquemas conceitais e como diferenciar esquemas conceituais novos de uma ideia estranha ou simplesmente absurda.
O esquema conceitual provavelmente mais conhecido é o idioma. Se esquemas conceituais diferem entre si, idiomas diferem também. Mas pessoas de diversos idiomas conseguem de alguma forma manter um esquema conceitual transversal e conversar através de traduções por entre diferentes idiomas. Sendo assim o problema é mais complexo do que se pensava, como diferenciar as categorias ordinárias de operação de linguagem e de estrutura de linguagem? (DAVIDSON, 1973) * traduzi livremente o termo language como idioma, por fazer mais sentido ao texto, mesmo que as vezes se aproxime de linguagem.
Podemos dizer que duas pessoas possem diferentes esquemas conceituais se falarem idiomas que não sejam possíveis de serem inter-traduzidos? Para Davidson (1973) não há idiomas que sejam totalmente não inter-traduzíveis, mas existem os que são parcialmente não inter-traduzíveis. Sendo assim é possível refletir sobre essa questão quando em casos de não haver tradução adequada para casos particulares entre diferentes idiomas.
Existem duas formas de se descrever um mundo verdadeiro em qualquer idioma utilizando um sistema fixo de conceitos (palavras com significado fixo). Algumas sentenças serão verdadeiras simplesmente porque os conceitos ou significados são verdadeiros (pessoas infelizes não são felizes), outros devido ao jeito que o mundo é (pessoas infelizes não conseguem atingir seus objetivos pessoais). Desistir da distinção analítica-sintética como base de entendimento da linguagem é desistir da ideia de que podemos claramente a teoria da linguagem. (DAVIDSON, 1973).
Ou seja, a linguagem tem sua capacidade assertiva questionada e quando no embate perante ao empirismo, assume papel secundário. Outros autores acompanham Davidson:
Nosso argumento contra o significado fixo é simples e claro. Usualmente adotamos significados (princípios) que estão envolvidos com teorias antigas e que são inconsistente frente a novas teorias. A solução é natural, substituir os antigos princípios por novos, eliminando os antigos significados. (FEYERABEND, 1962).
Davidson (1973) admite que seu posicionamento é conflitante com o de outros autores como Quine, Smart, Wittgenstein e Ryle. E ele justifica em linhas gerais que não vê a linguagem como limite e que não admite que a solução para substituições de esquemas conceituais sejam unicamente a alteração na linguagem. pro cara bater com essa gente grande aí tem que ser muito foda heim
O dualismo sintético-analítico julga as afirmações verdadeiras ou falsas devido ao seu significado e ao seu conteúdo. Se abandonarmos o dualismo, nos abandonamos a concepção de significado quem vem com este, mas não abandonamos o conteúdo empírico. Podemos sustentar, se quisermos, que todas as sentenças tem conteúdo empírico. (DAVIDSON, 1973)
Conteúdo empírico é explicado pela referência aos fatos, o mundo, experiências, sensações, a totalidade do estímulo sensorial ou algo similar. Significado nos dá uma forma de falar sobre categorias, organização das estruturas de linguagem. É possível abandonar os significados e a analiticidade enquanto mantemos a ideia da linguagem enquanto incorporando esquema conceitual. (DAVIDSON, 1973).
Davidson (1973) sustenta ainda que não é necessário atrelar o empirismo ao modelo lógico de afirmações sentença por sentença.
A linguagem produz uma organização das experiências. Somos inclinados a pensar a linguagem simplesmente como uma técnica de expressão, e não entender que a linguagem primeiramente é a classificação e o arranjo de sensações que resultam em uma certo mundo-demandado. Ou seja, linguagem faz, em suas devidas proporções, o mesmo papel da ciência. Nós somos então introduzidos a novos princípios de relativismo, o qual sustenta que todos os observadores não são levados pelas mesmas evidências físicas à mesma figura do universo, a não ser pelo suporte linguístico que é similar entre todos, ou pode ao menos ser calibrado (WHORF, 1956).
Feyerabend (1965) sugere que nós podemos comparar esquemas conceituais contrastantes pela escolha de um ponto de vista externo ao sistema ou a linguagem. Isso é possível pois há ainda experiências humanas como processos reais, independente dos esquemas conceituais.
A experiência sensorial provê todas as evidências para a aceitação das sentenças (mesmo as que sejam completamente teóricas) (DAVIDSON, 1973).
8 de set. de 2011
Quine em: Two Dogmas of Empiricism
Hoje, e finalmente, trago o fichamento do texto Two Dogmas of Empiricism do Quine. Não se trata de um texto tão divertido... mas sua leitura é importante, e no caminho que estou traçando, é fundamental. Fiz a leitura em uma xerox do livro From a Logical Point of View, do qual só tenho esse trecho, e por falta de informações, tive que rastrear na web atrás da citação correta, já que nem o ano eu sabia. Pois não é que encontro uma dissertação nacional sobre o Quine, e nas citações... nenhum texto do Quine... isso diz muito.
Os dois Dogmas do empirismo modernos segundo Quines (1951) são:
1. A crença de que há uma rachadura fundamental entre as verdades que são analíticas (fundamentadas nos significados independentemente dos fatos) e sintéticas (fundamentadas em fatos);
2. Reducionismo. A crença de que cada afirmação é equivalente a alguma construção lógica em termos que se referem a experiências.
Grande parte do texto é dedicado a explanação do que seria analítico. Se diz que uma verdade é analítica quando ela é em virtude de significados e independente dos fatos. Um estudo bem feito sobre verdade analítica deve considerar o texto de Kant (comprei por R$5,00 no sebo). Até meu original chegar me contentarei com o comentador Quines (1951) que afirma que na visão de Kant a lógica analítica é limitada pela incapacidade de fugir da relação sujeito-predicado e permanece presa ao nível metafórico.
Sendo assim, o texto se faz entender que as normais gramaticais regulam a elaboração da verdade analítica, o que realmente trabalha no limite da nossa capacidade de bom senso, apenas esse posicionamento inicial faria-me acreditar que Quines é contra a verdade analítica.
Quines estou me esforçando para não escrever quilmes (1951) debate primeiramente a relação entre palavras e coisas, e afirma que os nomes são arbitrários e isso os iguala em importância aos seus significados quando na relação analítica. Pois para análises desta natureza, sempre será necessário definir os termos. Entretanto existem duas classes de termos, os singulares (o oitavo planeta do sistema solar) e os gerais (criaturas com coração).
Termos singulares nomeiam entidades, abstratas ou concretas, enquanto os gerais não. Mas um termo geral pode representar a verdade sobre uma entidade, de cada um ou de muitos ou de nenhum. A classe de uma entidade a qual um termo geral é dito verdade denomina-se extensão do termo (QUINES, 1951).
Quando construímos uma verdade para o turismo em porto de galinhas, trabalhamos com um termo simples que é válido apenas para este, se fizermos um estudo para o turismo em praias do nordeste, o termo se torna geral e sua extensão define todas as localidades inclusas na verdade que dissermos.
Algumas distinções começam a ser feitas. É comum de se confundir extensão com significado, sobretudo nos termos singulares. Os termos representam algo (extensão), mas não necessariamente significam isso. Significado, inclusive, é uma característica exclusiva das formas linguísticas (palavras), as coisas não possuem significados, elas possuem essência. Significado é o que a essência se torna quando está é separada do objeto e se junta à palavra. Significados por si só são entidades intermediárias obscuras e devem ser abandonadas (QUINES, 1951). ^^
Argumentos analíticos não são difíceis de encontrar. Quines (1951) os distingue de duas formas, os primeiros que são verdadeiros independente do significado das palavras, e os segundos que se tornam verdade a partir do uso de sinônimos.
1. Ninguém infeliz é feliz.
2. Ninguém triste é feliz.
Independente do significado da palavra feliz, a afirmação 1 sempre será verdadeira pela sua estrutura, sobretudo pelo uso do prefixo in-. A afirmação 2 torna-se verdadeira quando assumimos que triste é sinônimo de infeliz, e torna-se falsa, se assumirmos que triste possui um outro significado qualquer que perca o sentido de 1.
Essa lógica, trivial, é necessária para verdade analítica. Não há mais dúvidas de como construir uma verdade analítica, mas isso não resolve nosso problema, dizer que o argumento 1 não serve para 99,99% dos casos é o obvio ululante, simplesmente porque ele não diz nada, apenas faz um jogo seguro de palavras que garante a validade de 2, que é onde cravaremos nosso conhecimento. Se 2 for verdade, existe uma gama ilimitada de afirmações possíveis, o problema então é "apenas" entender como garantir que 2 possui um sinônimo que nos leve a 1?
Seja como for, não devemos aceitar que isso seja apenas um jogo de palavras, onde através do uso de sinônimos a verdade é construída. O propósito não é meramente parafrasear a definição com outras palavras, deve, na verdade, melhorar a definição através do refino ou suplementação de seu significado.
Prestando atenção, isso é bastante complicado. Mas fica simples se entendermos que não adianta dizer que um homem infeliz não é feliz, temos na verdade que melhorar a explicação. Um homem infeliz é aquele que sofreu uma perca considerável em sua vida, por exemplo.
Existem três formas então de parafrasear, segundo (QUINES, 1951)
1. Afunilando, dando um sinônimo com menor espectro de significados;
2. Melhorando a explicação;
3. Criando novos significados contextuais.
O que caracteriza um sinônimo perfeito é a sua característica de interchangeabilidade (inventei essa palavra, talvez fosse melhor interaltabilidade... não sei), ou seja, capacidade que duas formas linguísticas tem de terem o mesmo valor, sem alterações, em qualquer contexto que sejam usadas (QUINES, 1951). Vejamos um exemplo prático para essa aplicaçãose é que isso é possível.
A. Todo e apenas os infelizes não são felizes
B. Necessariamente todos e apenas os infelizes são infelizes
C. Necessariamente todos e apenas os infelizes não são felizes.
A frase B é verdadeira. Mas para dizer que a frase C é também verdadeira, devemos concluir que A é uma afirmação analítica e que Infeliz e Não feliz são sinônimos interchangíveis (inalteráveis), ou como denomina Quines (1951), sinônimos cognitivos. Essa categoria de sinônimo exige que a comparação analítica seja válida para a condição "se e somente se". Uma afirmação é analítica se ela for verdadeira e de acordo com as regras semânticas.
É óbvio, também, que uma verdade geralmente depende de fatores linguísticos e extra linguísticos. A afirmação "Brutus matou César" seria falsa se o mundo tivesse sido diferente de alguma maneira, mas também seria falsa se a palavra "matou" tivesse outro sentido de trair. A afirmação então deve ser analisada através de um componente linguístico e um componente factual. (QUINES, 1951). E finalmente para jogar uma pá de cal nas afirmações analíticas: Uma fronteira entre afirmação analítica e sintética simplesmente não existe.
Mudando de assunto, o reducionismo radical é aquele que prega que cada afirmação significativa é considerada traduzível em afirmação (verdadeira ou falsa) sobre uma experiência imediata. Reducionismo radial, de uma forma ou de outra, antecede a teoria da verificação. Locke e Hume sustentam que cada ideia precisa ser originada diretamente de uma experiência, ou composta por ideias também originadas pela experiência (QUINES, 1951).
Ou seja, para uma afirmação ser verdadeira, ela analítica ou sintética (já vimos que a fronteira é muito tênue entre estas) precisa ter um sentido de experiência imediata para cada um dos seus termos, ou cada um destes pode ser analiticamente justificado por afirmações que (estas sim) foram fruto de experiencias imediatas. Neste caminho, o reducionismo radial acredita que tudo é empírico.
Esses são os dois dogmas do empiricismo, as afirmações devem ser postadas de forma analítica ou sintética (se é que existe grande diferença) e são ligadas em algum graus à experiencias imediatas (reducionismo).
Embora alguns pensadores como Carnap tenham quebrado o o reducionismo, ele é ainda utilizado pela grande maioria como Hume e Locke. Para Quines (1951) a ciência é dependente tanto da linguagem quando da experiência, pois ela é uma ferramenta que em ultima instancia antevê as experiências futuras baseado em experiências passadas.
Prestando atenção, isso é bastante complicado. Mas fica simples se entendermos que não adianta dizer que um homem infeliz não é feliz, temos na verdade que melhorar a explicação. Um homem infeliz é aquele que sofreu uma perca considerável em sua vida, por exemplo.
Existem três formas então de parafrasear, segundo (QUINES, 1951)
1. Afunilando, dando um sinônimo com menor espectro de significados;
2. Melhorando a explicação;
3. Criando novos significados contextuais.
O que caracteriza um sinônimo perfeito é a sua característica de interchangeabilidade (inventei essa palavra, talvez fosse melhor interaltabilidade... não sei), ou seja, capacidade que duas formas linguísticas tem de terem o mesmo valor, sem alterações, em qualquer contexto que sejam usadas (QUINES, 1951). Vejamos um exemplo prático para essa aplicação
A. Todo e apenas os infelizes não são felizes
B. Necessariamente todos e apenas os infelizes são infelizes
C. Necessariamente todos e apenas os infelizes não são felizes.
A frase B é verdadeira. Mas para dizer que a frase C é também verdadeira, devemos concluir que A é uma afirmação analítica e que Infeliz e Não feliz são sinônimos interchangíveis (inalteráveis), ou como denomina Quines (1951), sinônimos cognitivos. Essa categoria de sinônimo exige que a comparação analítica seja válida para a condição "se e somente se". Uma afirmação é analítica se ela for verdadeira e de acordo com as regras semânticas.
É óbvio, também, que uma verdade geralmente depende de fatores linguísticos e extra linguísticos. A afirmação "Brutus matou César" seria falsa se o mundo tivesse sido diferente de alguma maneira, mas também seria falsa se a palavra "matou" tivesse outro sentido de trair. A afirmação então deve ser analisada através de um componente linguístico e um componente factual. (QUINES, 1951). E finalmente para jogar uma pá de cal nas afirmações analíticas: Uma fronteira entre afirmação analítica e sintética simplesmente não existe.
Mudando de assunto, o reducionismo radical é aquele que prega que cada afirmação significativa é considerada traduzível em afirmação (verdadeira ou falsa) sobre uma experiência imediata. Reducionismo radial, de uma forma ou de outra, antecede a teoria da verificação. Locke e Hume sustentam que cada ideia precisa ser originada diretamente de uma experiência, ou composta por ideias também originadas pela experiência (QUINES, 1951).
Ou seja, para uma afirmação ser verdadeira, ela analítica ou sintética (já vimos que a fronteira é muito tênue entre estas) precisa ter um sentido de experiência imediata para cada um dos seus termos, ou cada um destes pode ser analiticamente justificado por afirmações que (estas sim) foram fruto de experiencias imediatas. Neste caminho, o reducionismo radial acredita que tudo é empírico.
Esses são os dois dogmas do empiricismo, as afirmações devem ser postadas de forma analítica ou sintética (se é que existe grande diferença) e são ligadas em algum graus à experiencias imediatas (reducionismo).
Embora alguns pensadores como Carnap tenham quebrado o o reducionismo, ele é ainda utilizado pela grande maioria como Hume e Locke. Para Quines (1951) a ciência é dependente tanto da linguagem quando da experiência, pois ela é uma ferramenta que em ultima instancia antevê as experiências futuras baseado em experiências passadas.
22 de ago. de 2011
Afinal, o que é a Verdade?
Duas proposições são coerentes quando ambas podem ser verdadeiras, e são incoerentes quando uma, pelo menos, deve ser falsa. Mas a fim de saber se duas proposições são ambas verdadeiras devemos conhecer verdades como a lei de contradição. (RUSSELL, 2005).
Verdade e falsidade são dois lados da moeda mais utilizada em qualquer estudo. Mas sua definição é certamente de rara aparição, tomemos como conceitos já conhecidos por todos. O que de fato não são. A verdade objetiva ou subjetiva obedece a regras, que a tornam verdadeira, ou falsa.
O conhecer é um verbo que não possui antônimo. Ou se conhece, ou não se conhece, mas uma vez que está conhecido, não há palavra para explanar um falso conhecimento, ao contrário da verdade, que em sua forma oposta se torna falsidade. Quando conhecemos uma pedra, pedra está que é fruto do nosso conhecimento e só, entretanto poderemos pensar em verdades e falsidades sobre a pedra. Nosso objeto de estudo aqui é a verdade, e não o conhecimento (que já foi abordado aqui, aqui, aqui e aqui).
Russell (2005) levanta então três pontos necessários para o entendimento da verdade:
1) A teoria da verdade deve ser tal que admita o seu oposto, a falsidade, visto que no caso do conhecimento direto não era necessário levar em conta o oposto.
2) De fato, a verdade e a falsidade são propriedades das crenças e dos enunciados; portanto, um mundo de pura matéria, dado que não conteria crenças nem enunciados, não conteria tampouco verde ou falsidade.
3) A verdade ou falsidade de uma crença sempre depende de alguma coisa externa à própria crença. Portanto, embora a verdade e a falsidade sejam propriedades das crenças, elas são propriedades que dependem das relações das crenças com outras coisas, não de alguma qualidade interna das crenças.
A verdade consiste em uma forma de correspondência entre a crença e o fato. (RUSSELL, 2005). Ela está externa as crenças, e de certa forma externa aos fatos também, é firme então na relação entre estes, sabe-se que realidade e verdade são coisas distintas, e o que as fazem correspondentes é o conceito de coerência (abordado aqui e aqui).
É possível que, com suficiente imaginação, um romancista possa inventar um passado para o mundo que seja perfeitamente compatível com o que conhecemos e, não obstante, seja completamente diferente do passado real. Em muitas questões científicas é certo que existem frequentes duas ou mais hipóteses que explicam todos os fatos conhecidos sobre algum assunto, e embora em tais casos os cientistas tentem encontrar fatos que excluam todas as hipóteses exceto uma, não existe razão alguma para que sempre sejam bem sucedidos.(RUSSELL, 2005).
Jamais haverá garantia de que conhecemos o mundo como ele realmente é, apenas podemos dizer que nossa verdade é compatível com o que dele percebemos. E para isso existe método.
Também na filosofia não parece incomum que duas hipóteses rivais sejam ambas capazes de explicar todos os fatos. A outra objeção a esta definição da verdade é que ela supõe que sabemos o significado de "coerência", enquanto que, na realidade, a "coerência" pressupõe a verdade das leis da lógica. Por estas duas razões, a coerência não pode ser aceita como algo que fornece o significado da verdade, embora seja frequentemente um importante teste da verdade depois que certa soma de verdade nos é conhecida (RUSSELL, 2005).
Sendo assim, o conceito que sustenta a verdade é a correspondência com o fato. Vamos mais fundo nessa afirmação de Russell (2005). Ele vincula verdade a crença. Não à justificação da crença, que é papel da epistemologia, mas a correspondência entre os fatos da crença. A mente ao propor uma crença qualquer não pode afirmar se esta é verdadeira ou falsa, mas ela pode afirmar que existem objetivos e relacionamentos presentes na crença. Por exemplo: Pedro acredita que Paulo ama Maria, neste exemplo temos quatro termos (A) Pedro, (B) Paulo, (C) Maria e (D) ama. Neste caso A julga B e C através de D. Sendo A o sujeito da ação de julgar e os demais objetos.
O que denominamos crença ou juízo não é outra coisa a não ser esta relação de acreditar ou julgar, que relaciona uma mente com várias coisas diferentes dela mesma. Um ato de crença ou se juízo é a ocorrência entre certos termos em um tempo determinado da relação de acreditar ou julgar. Em todo ato de juízo há uma mente que julga e os termos sobre os quais ele julga. (RUSSELL, 2005).
No nosso exemplo a mente A, julga que B, C e D existem e desta forma a crença torna-se verdadeira, se qualquer um não tiver sua existência comprovada (por método de pesquisa) a crença é falsa. Por exemplo, Pedro acredita que João ama Maria, ou Pedro acredita que Paulo odeia Maria, ou Pedro acredita que Paulo ama Ana. Em todos os exemplos há uma não existência de um dos objetos da crença original, o que a torna falsa.
Assim, uma crença é verdadeira quado ela corresponde a um determinado complexo associado, e falsa quando não corresponde. Admitamos, para maior clareza, que os objetos das crenças sejam dois termos e uma relação e que os termos sejam colocados numa certa ordem pelo "sentido" de acreditar. Então, se os dois termos naquela ordem são unidos num complexo pela relação, a crença é verdadeira; se não, ela é falsa. (RUSSELL, 2005).
Lembremos, as crenças são fruto das mentes e dependem desta para sua existência (em nenhuma conexão com a realidade ou conhecimento), mas estas não dependem da mente para serem verdadeiras (dependem exclusivamente de fatores externos, da percepção nossa da realidade, e suas relações).
Como se pode ver, a mente não cria a verdade ou a falsidade. Ela cria as crenças, mas uma vez criadas, a mente não pode torná-las verdadeiras ou falsas, exceto no caso especial onde elas dizem respeito às coisas futuras que estão dentro do poder da pessoa acreditar, como tomar o trem. O que torna uma crença verdadeira é um fato, e este fato não envolve de modo algum (exceto em casos excepcionais) a mente da pessoa que tem a crença. (RUSSELL, 2005)
E se a noção intuitiva de verdade como uma espécie de acordo entre a crença e uma instância exterior (fatos) for mantida, então podemos ter opiniões verdadeiras de cuja verdade não sabemos. Á primeira vista, essa situação é desconcertante, pois seria natural desejar que também fossem verdadeiras aquelas opiniões das quais temos certeza. Mas a certeza não é um critério indicativo de verdade (DUTRA, 2010).
E desapoiados dos dados primários, tudo que construímos são crenças e não verdades. E das crenças tudo pode ser afirmar, sobretudo que são falsas. E das verdades que foram construídas sobre dados de métodos sem rigor, não é justo que tomemos como falsos, porém nada mais são do que crenças.
16 de ago. de 2011
O argumento de Russell
Ainda sobre epistemologia, minha mente ferve. Russell, em seu livro "Os problemas da filosofia" original de 1912 inicia o capítulo 13 com a seguinte questão: "Podemos conhecer algo, com efeito, ou só de vez em quando por uma feliz coincidência, acreditarmos que é verdadeiro?" (RUSSELL, 2005).
Até agora entendemos por conhecimento as proposições justificadas sob a luz da epistemologia (independente de corrente) (DUTRA, 2010), entretanto, Gettier (1963) afirma, ou nos desafia, que mesmo assim não há garantias de encontrarmos a verdade, jogando uma grande pá de terra em cima do que tínhamos como realidade, a partir da lógica epistemológica. Preciso de uma terceira voz, alguém para desempatar o jogo, pois até então ambos argumentos parecem razoáveis, embora sejam conflitantes.
Entendamos novamente o significado da palavra conhecimento. Uma crença justificada não é necessariamente um conhecimento (RUSSELL, 2005). Algumas crenças, mesmo verdadeiras, não são conhecimento, pois, para Russell (2005) fica claro que uma crença verdadeira não é um conhecimento quando é deduzida de uma crença falsa. Mesmo que (e principalmente quando) o sujeito acredite que a crença falsa, é verdadeira... Argumento de Russell (2005) e também de Gettier (1963).
Ainda sobre o que não é conhecimento. Um erro de lógica, é conhecido como falacia. Nessas situações conhecimento nenhum será gerado, mesmo que as premissas sejam verdadeiras, por falha na lógica. Por exemplo:
Se sei que todos os gregos são homens e que Sócrates era homem, e infiro que Sócrates era grego, não se pode dizer que sei que Sócrates era grego, porque, embora as premissas e a conclusão sejam verdadeiras, a conclusão não se segue das premissas.
Então para que haja conhecimento as premissas devem ser verdadeiras, a lógica deve estar correta e as premissas também devem ser conhecidas. Para Russell (2005) então, o conhecimento é o que é validamente deduzido de premissas conhecidas. Mas como o sujeito conhece as premissas é onde mora o problema. Bem lembremos que Dutra (2010) excluí essa responsabilidade do campo da epistemologia, tratando somente o conhecimento derivado.
O conhecimento derivado é aquele que é deduzido de forma válida de premissas conhecidas intuitivamente. Ou seja, não nos importemos de onde vieram as crenças, mas se estas foram justificáveis, e a lógica dedutiva estiver correta, atingiremos o conhecimento (derivado).
Fácil? Vou complicar mais. Um sujeito pode conceber uma crença verdadeira intuitivamente a qual pode ser inferida de modo válido, mas a partir do qual não foi, de fato, inferido por um método lógico (RUSSELL, 2005).
Todo nosso problema gira em torno do conhecimento intuitivo. Para o conhecimento derivado sempre será possível recair sobre o conhecimento intuitivo. Quando assumimos crenças e deduções, nosso erro será perdoado se deixarmos nos enganar pelo conhecimento intuitivo, sempre pela desculpa da incapacidade de saber que ele estava errado. Para Gettier (1963) essa desculpa é de amarelo e o problema está realmente no método dedutivo, enquanto Russell (2005) coloca um parenteses nas crenças, chama de conhecimento indutivo, aprova o método dedutivo, e fica com um abacaxi na mão.
O abacaxi é o conhecimento intuitivo que é constituído pela crença e pela percepção (no sentido simples mesmo). Em relação a todo fato então existem duas formas de assumirmos conhecimento: (1) por meio de um juízo, no qual se julga que suas diversas partes relacionam-se; e (2) por meio do conhecimento direto do próprio fato complexo, o qual pode ser denominado de percepção. A primeira nos dá uma garantia parcial da verdade enquanto a segundo uma garantia total. A secunda exige a ocorrência real do fato
Slow down! Deixa eu entender uma coisa. Gettier (1963) disse que a dedução era uma coisa errada por gênese e não sugere nada, mas eis que Russell (2005), sugere que o problema não é na dedução como um todo, mas apenas naquelas onde as crenças são obtidas por meio de juízo (qualquer coisa que não o empirismo). Olha que legal, parece que a escola empirista não precisa de mais nada para se justificar. Vamos ver como Russell (2005) resolve então a questão das crenças de juízo.
Imagine um grau de certeza em relação aos conhecimentos intuitivos. Chamemos de muita certeza algo que você percebe com seus sentidos e é tangível o suficiente para não lhe causar nenhum princípio de dúvida, e chamemos de pouca certeza uma crença que é duvidoso. Se, nesta escala, o sujeito possui certeza, o fato foi observado pelos sentidos e não resta dúvida, temos um conhecimento. Se o sujeito tem certeza de que não pode afirmar se o fato foi observado ou não, chamemos de erro. Mas se em algum grau há uma dúvida sobre a realidade do fato, com base em inferência lógica ou psicológica, temos a opinião provável. (RUSSELL, 2005).
"Um corpo de opiniões individualmente prováveis, se são mutuamente coerentes, tornam-se mais prováveis do que seria cada uma individualmente. É desta maneira que muitas hipóteses adquirem sua probabilidade. Elas se organizam num sistema coerente de opiniões prováveis, e, assim, tornam-se mais prováveis do que o seriam isoladamente" (RUSSELL, 2005).
Está então resolvido o problema, ufa. Conhecimento é uma crença justificada sob lógica dedutiva baseado em premissas verdadeiras, verificáveis e reais. Quando das premissas não se pode afirmar sua veracidade (realidade), chama-se opiniões prováveis. Com forme mais pessoas apostam em uma mesma opinião provável, maior a probabilidade desta se tornar conhecimento. E como nós sabemos que a epistemologia não observa as premissas, apenas a justificação (DUTRA, 2010), ela se livra de um questionamento desqualificante e por esta saída intelectual genial de Russell (2005) ao problema de Gettier (1963), podemos continuar nossa aventura no mundo da epistemologia, agora mais bem mais forte.
15 de ago. de 2011
O argumento de Gettier
Até onde pude observar nos demais trabalhos um dos clássicos na área é o artigo "Is justified true belief knowledge?" (algo como = Uma crença real justificada é conhecimento?) de Edmund Gettier. O texto de 1963 tem 3 páginas. É com grande desconfiança que abro o pdf. Eis que me deparo com o pior, o texto é em tópicos e no total apenas uns 10 parágrafos. Não é possível!! Eis que leio o texto, pqp, o cara é foda mesmo. Vou apresentar aqui o meu fichamento sem nenhuma pretensão que seja fácil de entender
Como já foi dito, epistemologia envolve mais lógica do que prega o senso comum. Então o que é discutido aqui é justamente isso. Tomemos 3 soluções lógicas para o mesmo problema (favor não pensar em nenhuma escola epistemológica, apenas no mecanismo puro).
Problema: É verdade que S conhece P se (tem que ser pausado e sempre repetindo o enunciado antes de cada situação para não ficar maluco):
(a) P for verdadeiro / S acredita em P / S tem justificativa para crer em P
(b) S aceita P / S tem evidencias adequadas para P / P for verdadeiro
(c) P for verdadeiro / S estiver certo de que P é verdadeiro / S tem o direito de estar certo que P é verdadeiro
Qual é a correta, uma, todas ou nenhuma? Nenhuma delas. A grande intervenção de Gettier (1963) foi justamente essa, ele afirma primeiro que todas elas falham na questão relativa a teoria da justificação. Elas na verdade se igualam pois "S tem justificativa para crer em P" equivale à "S tem evidencias adequadas para P" que equivale também à "S tem o direito de estar certo que P". E essas três sentenças são destruídas pelo argumento: é possível que uma pessoa tenha uma crença justificada em uma preposição que é falsa. Ou seja, se a epistemologia dependa da justificação, esta não e garantia de verdade.
Calma que ainda tem mais confusão. Se S tem um conhecimento justificado em P e P implica em Q, e S deduz Q de P e aceita Q como resultado desta dedução, então S tem uma crença justificada em Q.
Até então, Gettier (1963) conseguiu desconstruir a lógica baseada em justificação. É como se um aluno qualquer ao escrever sua tese tivesse condições plenas de justificar teoricamente suas proposições, porém, sem garantia nenhuma que mesmo justificadas estas são verdadeiras. Dois casos são apresentados no artigo de Gettier (1963): (já que são pequenos, irei traduzir, as minhas anotações estão em itálico)
Caso Primeiro
Suponhamos que Smith e Jones vão tentar um emprego. E suponhamos que Smith tem fortes evidencias para:
(d) Jones é o homem que conseguirá o emprego (devido a uma informação privilegiada do presidente da empresa), e Jones tem 10 moedas no bolso (Smith as contou dez minutos atrás).
(e) O homem que conseguirá o emprego tem 10 moedas no bolso.
Perceba que são apresentadas as sentenças declarativas juntamente com as suas justificações, e segundo os pressupostos lógicos, tudo isso é verdade, S conhece P.
Smith tem crenças justificadas sobre (d), mas acredita em (e) por dedução. Sendo assim, (e) é verdadeiro para ele. Quase todo nosso conhecimento é construído desta forma, pode parar pra pensar.
Imaginemos então que desconhecidamente, Jones não consegue o emprego, quem consegue é o próprio Smith. E também desconhecidamente Smith tem dez moedas em seu bolso. A proposição (e) permanece verdadeira, enquanto a preposição (d) tornou-se falsa.
Ficamos então assim: (e) é verdadeira, Smith acredita quem (e) é verdadeira e Smith tem crenças justificadas de que (e) é verdadeira. O que Smith não sabe é que (e) é verdadeira em virtude do número de moedas que ele mesmo tem em seu bolso, informação que ele não sabia. Então Smith acreditou em (e) baseado em uma falsa informação sobre o homem que iria conseguir o emprego.
Caso Segundo
No outro exemplo Gettier (1963) imagina que Smith tem uma crença justificável de quem (f) Jones tem um carro Ford (por que sempre o viu com um desses). Existem também um outro amigo chamado Brown, sob o qual Smith não tem mas nenhuma informação. Então ao acaso ele escolhe três lugares e constrói as seguintes proposições:
(g) Ou Jones tem um Ford, ou Brown está em Boston;
(h) Ou Jones tem um Ford, ou Brown está em Barcelona;
(i) Ou Jones tem um Ford, ou Brown está em Brest-Litovsk.
Todas essas proposições são implicações de (f). Imaginemos que Smith acredita, devido a fortes evidencias em (f) e logo aceita também como verdade (g), (h) e (i). Pois Smith não faz a menor ideia de onde realmente está Brown.
Mas imaginemos que Jones não tem um Ford, ele na verdade dirigia um carro alugado, e por uma coincidência Brown está vivendo em Barcelona. Sendo assim: (h) é verdadeira, Smith acredita que (h) é verdadeira e Smith tem uma crença justificável de que (h) é verdadeira.
Gettier (1963) demonstrou que os raciocínios lógicos apresentados não são suficientes para assumirmos que S conhece P.
Sem mais exemplos, sabemos agora que uma pesquisa muito bem justificada, pode chegar a um resultado falso. Isso porque a dedução lógica não prevê eventos desconhecidos. E como saber que eles existem, já que são desconhecidos?
O argumento de Gettier (1963) destrói a nossa figura do post sobre epistemologia e pior, questiona toda nossa lógica epistemológica da teoria da justificação. Nada ficará sem resposta, mas no momento já disse demais por hoje.
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