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19 de out. de 2011

Investigações sobre o Entendimento Humano - Parte 2





    E pelo que me parece a maior contribuição de Hume (2006) foi a associação de ideias, pelo menos é o mais citado. Ele foge do racionalismo e usa o exemplo dos significados das palavras em línguas diversas para justificar seu pensamento sobre a influência das experiências. Entre os idiomas mais distintos, mesmo nos que não podemos ver a menor conexão ou comunicação, iremos verificar que as palavras que exprimem as ideias mais complexas são na maioria das vezes correspondentes entre si, o que seguramente prova que as ideias simples, compreendidas nas ideias complexas, foram ligadas por algum princípio universal que tinha igual influência sobre toda humanidade (HUME, 2006).
    Ou seja, existem ideias capturadas in natura que vieram a nós diretamente das experiencias pelos órgãos sensoriais e outras que se formaram através da associação delas. Para Hume (2006) há somente três princípios de conexão entre as ideias, que são: de semelhança, de contiguidade - no tempo e espaço - e de causa ou efeito. Entretanto, é difícil provar que essa enumeração seja completa e que não há outros princípios de associação.
   Para as relações de semelhança a explicação é simples, se hoje sou apresentado a uma maça sempre que ver tal forma me recordarei da ideia de maça, e mesmo que a original não esteja mais presente sou capaz de associar o conceito as formas que me parecem similares.
   Contiguidade aproxima as ideias por tempo ou por espaço. Embora o sol e o mar sejam coisas separadas e independentes é possível (e de fato acontece) que ao ver o sol em um dia quente e de céu limpo me venha a cabeça imediatamente o mar. É uma associação de lugar, pois, mar e sol compõem o cenário ideal de praia. Assim como pensar na sexta e lembrar do fim de semana é uma associação de tempo, já que os dias da semana são instancias independentes.
    Já a associação de causa é um assunto mais complexo, seria basicamente associar a ideia de fogo a ideia de calor e a ideia de queimadura. Mas quem disse que eles realmente são causa e efeito?


   Todos os objetos da razão e investigação humana podem, naturalmente, dividir-se em dois grupos, a saber: Relações de ideias e questões de fato à primeira classe pertencem as ciências da Geometria, Álgebra e Aritmética e, em resumo, toda afirmação que é intuitiva ou demonstrativamente verdadeira (HUME, 2006). As proposições da relação de ideias podem descobrir-se pela mera operação do pensamento, independentemente do que possa existir em qualquer parte do universo. Ainda que jamais tivesse havido um círculo ou um triângulo na natureza, as verdade demonstradas por Euclides conservariam sempre sua certeza e evidência. Bem vindo a realidade das verdades analíticas que nos jogam invariavelmente para uma caixa de pandora que se chama linguística.
   Não são averiguadas da mesma maneira as questões de fato, os segundos objetos da razão humana; nem nossa evidência de sua verdade, por muito grande que seja, é da mesma natureza que a precedente. O contrário de qualquer questão de fato é, em qualquer caso, possível, porque jamais pode implicar uma contradição, e é concebido pela mente com a mesma facilidade e distinção que se fora totalmente ajustado à realidade (HUME, 2006).
   Todos os nossos raciocínios a respeito de questões de fato parecem fundar-se na relação de causa e efeito. Tão só por meio desta relação podemos ir além da evidência de nossa memória e sentidos e todos os nossos raciocínios a respeito dos fatos são da mesma natureza. E neles se supõe constantemente que há uma conexão entre o fato presente e o que se infere dele. Se não tivesse nada que os unisse, a inferência seria totalmente precária (HUME, 2006).
   Nem após mil árvores nascerem após plantarmos mil sementes será impossível cravar a certeza desta relação de causa e efeito com base apenas em Hume (2006). E ele mesmo afirma que mesmo havendo conhecimento dessa associação de causa e efeito o efeito oposto de não nascer árvore alguma após plantar a semente é igualmente válido. Assim como o sol não nascer amanhã sempre será uma ideia tão válida quando a de ele nascer. E só para complicar mais, Hume (2006) diz que apenas observar a semente e inferir que nasceu uma árvore nada nos diz sobre a relação de causa e efeito, ela é apenas associativa no campo das ideias, ninguém sente as ações, apenas observa os fatos e nossa cabeça se encarrega de dar sentido aos acontecimentos. Por conseguinte, se quiséssemos chegar a uma conclusão satisfatória quanto à natureza daquela evidência que nos assegura das questões de fato, temo-nos de perguntar como chegamos ao conhecimento da causa e do efeito (HUME, 2006).
   Hume (2006) permite-se afirmar, como proposição geral que não admite exceção, que o conhecimento dessa relação em nenhum caso se atinge por raciocínios a priori, senão que surge inteiramente da experiência, quando encontramos que objetos particulares quaisquer estão constantemente unidos entre si. Ninguém se imagina que a explosão da pólvora ou a atração de um imã poderia descobrir-se por meio de argumentos a priori. Em vão, pois, tentaríamos determinar qualquer acontecimento singular, ou inferir qualquer causa ou efeito, sem a assistência da observação e da experiência.
   Se o parágrafo acima for verdade, eis que Descartes (2006) sai da ciência e entra para a literatura de ficção, e ele escreve muito bem!
   Mas nenhum objeto revela pelas qualidades que aparecem aos sentidos, nem as causas que o produziram, nem os efeitos que surgem dele, nem pode nossa razão, sem a assistência da experiência, sacar inferência alguma da existência real e das questões de fato (HUME, 2006). É por isso que os mágicos e ilusionistas confundem nossa cabeça tão facilmente, nós não vemos as relações, apenas vemos os fatos e julgamos ser conhecedores das causas e efeitos, quando em verdade não somos.
    Diante da incapacidade humana de compreender o universo Hume (2006) expressa que sem dúvida alguma, tem-se de aceitar que a natureza nos manteve à grande distância de todos os seus segredos e nos proporcionou só o conhecimento de algumas qualidades superficiais dos objetos enquanto nos oculta os poderes e princípios dos quais depende totalmente o influxo desses objetos.
    Hume (2006, p.56) diz: "Encontrei que a tal objeto correspondeu sempre tal efeito e prevejo que outros objetos, que em aparência são similares, serão companhados por efeitos similares. Aceitarei, se se deseja, que uma proposição pode corretamente inferie-se da outra. Sei que, de fato, sempre se infere. Mas se se faz questão de que a inferência é realizada por meio de uma corrente de raciocínios, desejo que se apresente aquele raciocínio. A conexão entre essas duas proposições não é intuitiva. Requer-se um meio-termo que permita à mente chegar a tal inferência, se efetivamente se atinge por meio de raciocínio e argumentação. O que esse meio-termo seja, devo confessá-lo, ultrapassa meu entendimento, e incumbe apresentá-lo a quem afirma que realmente existe e que é a origem de todas as nossas conclusões a respeito das questões de fato."
    Todos os raciocínios podem dividir-se em duas classes, a saber: o raciocínio demonstrativo ou aquele que concerne às relações de ideias e o raciocínio moral ou aquele que se refere às questões de fato e existenciais (HUME, 2006). Todos os argumentos a respeito da experiência se fundam na relação causa-efeito, que nosso conhecimento dessa relação deriva totalmente da experiência, e que todas as nossas conclusões experimentais se dão a partir do suposto de que o futuro será como foi o passado. Na realidade, todos os argumentos que se fundam na experiência estão baseados na semelhança que descobrimos entre objetos naturais, o que nos induz a esperar efeitos semelhantes aos que vimos seguir tais objetos.
   De causas que aprecem semelhantes esperamos efeitos semelhantes. Isso parece compendiar nossas conclusões experimentais. Pois bem, parece evidente que se esta conclusão fora formada pela razão, seria tão perfeita a princípio e num só caso, como depois de uma longa sucessão de experiências. Mas a realidade é muito diferente. Não há nada tão semelhante entre si como os ovos, mas ninguém, em virtude dessa aparente semelhança, aguarda o mesmo gosto e sabor de todos eles. Mas onde está o processo de raciocínio que, a partir de um caso, atinge uma conclusão muito diferente da que se inferiu de cem casos, em nenhum modo diferentes do primeiro? (HUME, 2006)
   Fica claro que Hume (2006) já observava que a natureza não é tão linear. Sua inquietação com a não replicabilidade das experiências é notória e ainda hoje é para qualquer ciência. É claro que muitos pensadores lidaram com essa questão e chegaram cada um com sua solução imperfeita, de fato, este é para mim o divisor de água metodológico: a forma de compreender a incerteza.

 

7 de out. de 2011

Investigações sobre o Entendimento Humano - Parte 1


    David Hume é o mais influente autor da escola empirista britânica (DUTRA, 2010). Meu desafio atual é fichar seu livro "Investigação sobre o Entendimento Humano" de 1751. A versão original eu não tive acesso, e imagino que o inglês desse período não seja para o meu bico. Andei lendo alguns textos portugueses deste século e descobri que não dá pra entender nada, logo, deduzo que é melhor procurar uma tradução um tanto mais recente. Encontrei a da editora Escala, confesso que não gostei muito da tradução, é rebuscada demais e se torna mais uma coisa para interpretar, como se já não fossem complicadas por si só as ideias de Hume. Enfim, essa foi a versão adotada de 2003.
    Na primeira parte do livro (seção 1) "Das diferentes classes de filosofia" o debate me parece mais um desabafo, uma justificação de sua forma de vida. É então uma argumentação em favor da ciência moderna que estava nascendo contra a metafísica. Por metafísica entende-se a total rejeição de todo raciocínio profundo (HUME, 2003). Definição clara e precisa.
   Para HUME (2003) a ciência da natureza humana pode ser tratada de duas formas diferentes:

   1.  A primeira trata o homem como nascido principalmente para a ação e como influenciado em suas medidas por gosto e sentimentos, procurando um objetivo, e evitando outro, de acordo com o valor que esses objetivos parecem possuir, e de acordo com a luz em que eles se apresentam. Trocando em miúdos: metafísica, o saber pela experiência (mas sem razão), basicamente sentimental, em sua forma mais pura as pessoas acreditam e conhecem as coisas de acordo com a importância que dão pra elas, se aproximando pela vivencia. É o saber da maioria das pessoas, excluindo-se aqui os que se interessam por filosofia e ciências.
   2. A outra espécia de filósofos considera que o homem se guia mais à luz da razão em vez da ação, e busca para formar seu entendimento em vez de lhe aperfeiçoar os costumes. Eles consideram a natureza humana como tema de especulação; examinam-na com rigoroso cuidado a fim de encontrar os princípios que regulam nossa compreensão, excitam nossos sentimentos e nos fazem aprovar ou condenar qualquer objeto, ação, ou comportamento particular.

    Em tom de desabafo: É certo que a filosofia fácil e óbvia terá sempre a preferência dos homens sobre a filosofia exata e abstrusa; e por muitos será recomendada, não só como mais agradável, mas mais útil. Já que o filósofo puro é um personagem comumente pouco aceito no mundo, pois inicialmente se supões que ele não contribui em nada para o benefício ou para o prazer da sociedade, já que vive afastado de toda comunicação com os homens e envolvido em princípios e noções igualmente remotas à sua compreensão. Por outro lado, o ignorante puro é ainda mais desprezado, já que em uma época em que florescem as ciências, não há sinal mais clado de estreiteza de espírito do que não se interessar por esses nobres entendimentos. (HUME, 2003).
   Hume (2003) argumenta que a ciência possui uma considerável vantagem sobre a metafísica (filosofia fácil e humana), pois sem ela, nunca poderia-se alcançar grau suficiente de exatidão nos sentimentos, preceitos ou raciocínios. Até os artistas (livres da filosofia da ciência) devem ter conhecimentos científicos em suas obras para conseguirem expressar seus sentimentos, se não for dessa forma, impossível dar a tonalidade certa a cada músculo, coisa ou expressão, tudo obtido através de pesquisa científica (racional ou empírica).
   Por mais árdua que se apresente essa pesquisa ou investigação interna, ela se torna, em determinada medida, indispensável aos que quiserem descrever com sucesso as aparências óbvias e exteriores de vida e maneiras (HUME, 2003).
   O caminho mais doce e inofensivo da vida passa pelas avenidas da ciência e do saber; e, quem quer que possa remover quaisquer obstáculos desta via ou abrir uma nova perspectiva, deve ser consedierado um benfeitor da humanidade. Embora essas pesquisas possam parecer árduas e fatigantes, ocorre aqui como certos espíritos ou com certos corpos que, por estarem dotados de grande vitalidade, necessitam de exercícios severos e colhem prazer naquilo que, para a maioria dos homens, parece penoso e laborioso. A obscuridade é, de fato, penosa tanto para o espírito como para os olhos; todavia, trazer luz da obscuridade, por mais trabalhoso que seja, deve ser agradável e reconfortante. (HUME, 2003).
   O posicionamento de Hume (2003) então é a favor da ciência, da filosofia e sobretudo da lógica, para ele o raciocínio exato e justo (matemático) é o único remédio universal adequado a todas as pessoas e aptidões, o único capaz de destruir a filosofia abstrusa e o jargão metafísico que, mesclados com a superstição popular, se tornam, por assim dizer, impenetráveis aos pensadores descuidados e se afiguram como ciência e sabedoria.
   Como exemplo a favor da ideia de que a filosofia da ciência é o melhor caminho ao entendimento humano, Hume (2003) diz que os astrônomos se contentaram por muito tempo em provar, com base em fenômenos, o movimento verdadeiro, a ordem e a grandeza dos corpos celestes até que surgiu um filósofo que, munido de um raciocínio certeiro, parece haver determinado também as leis e forças que dirigem e governam os movimentos dos planetas. E não há razão para temer que não tenhamos o mesmo êxito em nossas investigações sobre a organização e as faculdades mentais, quando feitas com igual aptidão e atenção.
   E o argumento final lembra em muito a insegurança de Descartes (2006) também nas primeiras linhas de seu texto, Hume (2003) diz que o fato dos raciocínios sobre a natureza humana serem abstratos e de difícil entendimento não induz a nenhuma pressuposição de falsidade, pelo contrário, é improvável que o que tem fugido aos filósofos e sábios seja muito fácil e evidente.
  Belo discurso contra a metafísica.  

5 de out. de 2011

Empirismo


    O empirismo foi uma importantíssima escola filosófica que consolidou uma nova forma de se pensar o mundo, em relação ao continente. Digo isso, pois, os principais autores são da ilha britânica. John Locke, David Hume e George Berkeley. Minha lembrança mais forte dos empiristas vem com Francis Bacon, o qual, segundo meus professores, abria a boca de cavalos para contar os dentes... Descobri posteriormente que não é Bacon, mas Hume o principal autor, que é o que apresenta uma primeira doutrina epistemológica falibilista (DUTRA, 2010).
   O autor que realmente marcou profundamente a história da epistemologia moderna foi Hume. Ainda que haja talvez certo exagero de Kant em dizer que foi Hume que o despertou de seu sono dogmático, Hume é o empirista que lançou o maior desafio para a epistemologia como um empreendimento que visava à fundamentação do conhecimento empírico em geral, inclusive aquele que encontramos nas ciências da natureza. (DUTRA, 2010).
   O desafio empirista retoma a linha de argumentação da tradição britânica que antecedeu os empiristas modernos do período entre Locke e Hume, isto é, os nominalistas medievais, que eram críticos do realismo platônico. Essa crítica se estendeu a toda metafísica e à ciência aristotélica com Francis Bacon (o do cavalo)(DUTRA, 2010).
   E Hume é, de fato, um autor de fundamental importância nesse processo. Ele não apenas desafiou o dogmatismo continental, mas também os próprios objetivos do empirismo, aqueles de fundamentar o conhecimento na experiência e nas capacidades do entendimento humano.(DUTRA, 2010).
   Alguns modelos de intelecto foram adotados pelos autores empiristas. Os principais segundo Dutra (2010):

   1- Hobbes que descreveu o conhecimento como um processo iniciado fora do organismo humano, pela ação causal dos objetos fora de nós sobre nossos órgãos dos sentidos, e explicava a continuação desse processo, dentro do organismo, por meio da determinados mecanismos, inclusive o papel desempenhado pela linguagem.
   2- Hume que se concentrou nos mecanismos (princípios) que permitem a aquisição de ideias e as relações entre elas. (falarei muito mais sobre ele em um tópico exclusivo, quando tiver tempo).
   3- Locke que assim como Hobbes, levava a linguagem em consideração, e assim como Hume visava à descrição dos mecanismos mentais que permitem adquirir ideias e combiná-las. Um dos pontos principais do pensamento epistemológico de Locke é a crítica à doutrina das ideias inatas de Descartes, em particular, às ideias metafísicas, como "substância", "essência" etc., inclusive a ideia de Deus. O objetivo geral de Locke era mostrar que todas as nossas ideias têm origem na experiência, e que o entendimento possui meios pelos quais pode combiná-las. Para Locke, temos ideias provindas da sensação, isto é, o sentido externo, que nos coloca em relação com as coisas externas a nós. Mas temos também ideias provindas da reflexão, que é o sentido interno, por meio do qual temos percepções de nossos próprios processos mentais.

   A grande sacada da escola empirista foi inverter o fluxo das ideias, sendo que para os racionalistas essas deveriam vir de dentro para fora, e aos empiristas, em primeira instancia, de fora para dentro. Não se perde de todo o argumento de Descartes (2006), algumas de suas considerações como a forma de combinar ideias e o onipresente método axiomático (de origem euclidiana) ainda são válidos e amplamente utilizados. É verdade que pensar em uma ciência livre das experiências não é digna de atenção. Nem mesmo se considerarmos experiências da mesma forma como Descartes (2006). O que a escola empírica fez não foi apenas o óbvio ululante de propor que as experiências de fato contribuem (e muito) para a formação de nossas ideias, eles, de fato, investigaram um pouco mais a fundo, e inclusive discutem como elas são organizadas, agrupadas, como o raciocínio participa do processo, como é possível ter idéias racionais (não puras) e o mais importante, Hume desafia nossa capacidade de entendimento do mundo quando afirma que o Hábito nos cega a verdade dos fatos e que não só somos influenciados pela experiência, quanto muitas vezes produzimos conhecimento sem ao menos nos darmos conta do processo. Eu me identifiquei bastante com esses autores, embora..., gostaria de propor uma inclusão epistemológica que fará um salto de 400 anos... uma tese já surge em minha cabeça e nela ficará até que eu mesmo a destrua ou me convença que é forte o suficiente para ser divulgada.
   Falei de ideia, mas não defini o termo. Para Locke, ideia é tudo aquilo que está presente no entendimento. Para Hume, ao contrário, as ideias são cópias de impressões. O termo mais geral empregado por Hume é "percepção". Nossas percepções se dividem, segundo ele, em impressões e ideias, e as primeiras são as mais fortes ou vivazes; as segundas, as menos vivazes ou mais fracas. As ideias são mais "fracas" porque são cópias de impressões. O mais importante no modelo de Hume são as formas pelas quais combinamos nossas ideias. Segundo ele, são três os princípios de associação de ideias: (DUTRA, 2010).

   1. Semelhança;
   2. Contiguidade (de tempo ou de lugar); e
   3. Causa e efeito.

  Semelhança é literal, lembro de algo quando já tinha visto algo semelhante antes. Contiguidade é o fato de lembrar de coisas porque associo que aconteceram em sequencia cronológica ou simplesmente por terem ocupado o mesmo espaço ou lugares vizinhos. Já causa e efeito levará algum tempo para explicar. Deixarei essa parte mais saborosa da teoria para o post que traz o fichamento do livro Investigação sobre o entendimento humano.



27 de set. de 2011

DAVIDSON: On the Very Idea of a Conceptual Scheme


    O certo era ler o livro todo, mas seria muito desvio de rota de minha parte, sabendo que meu objeto está fixo. Mas ele é a pedra fundamental para fechar a discussão epistemológica, sobretudo para completar Quines (1951). O texto escolhido então foi "On the Very Idea of a Conceptual Scheme". O texto trata basicamente da dualidade analítica e sintética. Só que a argumentação para a força da linguagem é bastante diferente dos que tinha lido anteriormente. Na verdade assim como todos, tenho a impressão que o empirismo sai fortalecido, mesmo sem que seja necessário testemunhar a seu favor.
    Esquemas conceituais são formas de organizar experiencias, são sistemas de categorias que dão forma aos dados sensoriais, eles são pontos de vista dos quais indivíduos, culturas ou períodos buscam os cenários passados (DAVIDSON, 1973).
    Percebam que nada Davidson (1973) falou sobre modelagem, certamente não era o seu foco, nem o meu, mas é possível sim afirmar que modelagens empíricas são esquemas conceituais observando o rigor conceitual do próprio. Categoricamente Davidson (1973) afirma que todos tem esquemas conceituais (por exemplo, religiões são esquemas conceituais) e todo esquema conceitual, provavelmente, possui esquemas rivais. Já que são originados pelos sentidos e isso explica tudo.
    A existência de esquemas rivais é conhecida como paradoxo ou contradições. O relativismo conceitual nos afasta da ideia de que haja um real e um irreal, na verdade nosso ponto de estudo é muito mais modesto, o objetivo primário é tentar entender como estabelecer fronteiras entre os esquemas conceitais e como diferenciar esquemas conceituais novos de uma ideia estranha ou simplesmente absurda.
   O esquema conceitual provavelmente mais conhecido é o idioma. Se esquemas conceituais diferem entre si, idiomas diferem também. Mas pessoas de diversos idiomas conseguem de alguma forma manter um esquema conceitual transversal e conversar através de traduções por entre diferentes idiomas. Sendo assim o problema é mais complexo do que se pensava, como diferenciar as categorias ordinárias de operação de linguagem e de estrutura de linguagem? (DAVIDSON, 1973) * traduzi livremente o termo language como idioma, por fazer mais sentido ao texto, mesmo que as vezes se aproxime de linguagem.
   Podemos dizer que duas pessoas possem diferentes esquemas conceituais se falarem idiomas que não sejam possíveis de serem inter-traduzidos? Para Davidson (1973) não há idiomas que sejam totalmente não inter-traduzíveis, mas existem os que são parcialmente não inter-traduzíveis. Sendo assim é possível refletir sobre essa questão quando em casos de não haver tradução adequada para casos particulares entre diferentes idiomas.
   Existem duas formas de se descrever um mundo verdadeiro em qualquer idioma utilizando um sistema fixo de conceitos (palavras com significado fixo). Algumas sentenças serão verdadeiras simplesmente porque os conceitos ou significados são verdadeiros (pessoas infelizes não são felizes), outros devido ao jeito que o mundo é (pessoas infelizes não conseguem atingir seus objetivos pessoais). Desistir da distinção analítica-sintética como base de entendimento da linguagem é desistir da ideia de que podemos claramente a teoria da linguagem. (DAVIDSON, 1973).
   Ou seja, a linguagem tem sua capacidade assertiva questionada e quando no embate perante ao empirismo, assume papel secundário. Outros autores acompanham Davidson:

   Nosso argumento contra o significado fixo é simples e claro. Usualmente adotamos significados (princípios) que estão envolvidos com teorias antigas e que são inconsistente frente a novas teorias. A solução é natural, substituir os antigos princípios por novos, eliminando os antigos significados. (FEYERABEND, 1962).

    Davidson (1973) admite que seu posicionamento é conflitante com o de outros autores como Quine, Smart, Wittgenstein e Ryle. E ele justifica em linhas gerais que não vê a linguagem como limite e que não admite que a solução para substituições de esquemas conceituais sejam unicamente a alteração na linguagem. pro cara bater com essa gente grande aí tem que ser muito foda heim
    O dualismo sintético-analítico julga as afirmações verdadeiras ou falsas devido ao seu significado e ao seu conteúdo. Se abandonarmos o dualismo, nos abandonamos a concepção de significado quem vem com este, mas não abandonamos o conteúdo empírico. Podemos sustentar, se quisermos, que todas as sentenças tem conteúdo empírico. (DAVIDSON, 1973)
    Conteúdo empírico é explicado pela referência aos fatos, o mundo, experiências, sensações, a totalidade do estímulo sensorial ou algo similar. Significado nos dá uma forma de falar sobre categorias, organização das estruturas de linguagem. É possível abandonar os significados e a analiticidade enquanto mantemos a ideia da linguagem enquanto incorporando esquema conceitual. (DAVIDSON, 1973).
    Davidson (1973) sustenta ainda que não é necessário atrelar o empirismo ao modelo lógico de afirmações sentença por sentença.
    A linguagem produz uma organização das experiências. Somos inclinados a pensar a linguagem simplesmente como uma técnica de expressão, e não entender que a linguagem primeiramente é a classificação e o arranjo de sensações que resultam em uma certo mundo-demandado. Ou seja, linguagem faz, em suas devidas proporções, o mesmo papel da ciência. Nós somos então introduzidos a novos princípios de relativismo, o qual sustenta que todos os observadores não são levados pelas mesmas evidências físicas à mesma figura do universo, a não ser pelo suporte linguístico que é similar entre todos, ou pode ao menos ser calibrado (WHORF, 1956).
   Feyerabend (1965) sugere que nós podemos comparar esquemas conceituais contrastantes pela escolha de um ponto de vista externo ao sistema ou a linguagem. Isso é possível pois há ainda experiências humanas como processos reais, independente dos esquemas conceituais.
   A experiência sensorial provê todas as evidências para a aceitação das sentenças (mesmo as que sejam completamente teóricas) (DAVIDSON, 1973).